Diz-se que, hoje em dia, estar offline é um luxo. E é nesse luxo que estou a viver estes dias, isolada no resto do mundo, de estradas, de energia eléctrica e de rede móvel. Acompanhada pelo silêncio imponente das montanhas, da força do vento e da imensidão de Atlântico a perder de vista. Há algumas vacas, tantas como as poucas pessoas que aqui estão. E verde. Verde, em inúmeras tonalidades e em todas as direcções.

Estou na Fajã do Santo Cristo, ilha de São Jorge, arquipélago dos Açores. Aqui não há carros, sendo que a única forma de entrar ou sair é a pé ou de moto 4. Descemos a pé, uma trilha de duas horas em que, a cada cinco passos, é impossível que os olhos não brilhem e não sejamos inundados por uma sensação de arrebatamento. Arrepio na pele, constante, perante a beleza da natureza em estado puro e selvagem, num lugar onde a influência do homem – felizmente – ainda não se faz sentir.

Dada a quase inexistente rede para telefone ou internet, hoje decidi vir telefonar à família, uma vez que cada sms ou e-mail é enviado na incerteza da sua chegada ao destino. E lembrei-me que talvez fosse boa ideia actualizar alguma coisa online, no mundo que nunca pára. Assim, apanhei uma boleia de moto 4 e, uma hora depois, acedo à rede por breves minutos para deixar o insight de ontem…

Aceitar: o desafio do Yoga – e da vida

 

Nada se perde, tudo se transforma.

A natureza é sábia ao ensinar-nos que a existência se faz de ciclos que devem ser cumpridos. Ensina-nos isto nas estações do ano, por exemplo. Depois na energia do verão, as árvores despem-se das suas folhas enquanto se prepararam para o rigor do inverno. Até que com a primavera voltam a florir. A chuva e as tempestades fazem parte da natureza tanto quanto o sol e as flores e cada estação tem a sua beleza e a sua função.

Os açores podem ter as quatro estações do ano num mesmo dia, mesmo no verão (ou no recente outono, como é o caso). Por isso, depois de um dia de luz e calor é simplesmente normal cair uma uma tempestade de fazer estremecer o mais bravo dos marinheiros. E a prática de yoga diária ao ar livre tem de ser improvisada no interior; ou os planos para as trilhas das quedas-de-água e para o surf adiados, quando o vento parece capaz de nos fazer voar e a chuva mais se assemelha a uma monção; ou deixar para depois qualquer plano de férias que prefere sempre o brilho do sol e o calor.

É um exercício de paciência, qualidade que escasseia nos nossos dias. Habituados ao ritmo acelerado e à imediatez de tudo, donos da ilusão de que controlamos alguma coisa, aceitar o que não se pode mudar pode ser um desafio. E lugares como este são os grandes mestres desta arte.

No yoga, como aluna e como professora, defendo que devemos aceitar os nossos limites individuais. Yoga é consciência. Consciência do nosso corpo e dos limites naturais que todos temos e respeito pelos mesmos.
Não quero com isto dizer que não devemos desafiar-nos a ir um pouco mais longe, todos os dias, em qualquer instância da vida. Auto-superação. Mas aceitar que temos características e limites, que não podemos e não precisamos mudar. Não precisamos almejar ser ou fazer como outro alguém e sentirmo-nos frustrados ou ansiosos por isso. Somos únicos e, apesar de não trilharmos o nosso caminho sozinhos, cada um tem as suas aprendizagens singulares.

Não raras vezes, corpos muito flexíveis encerram em si mentes muito rígidas; a prática de yoga não se trata só de nos tornar fortes e flexíveis fisicamente. Serve, acima de tudo, para aprendermos a não nos julgarmos, a não nos compararmos. Para nos ensinar a amarmo-nos tal como somos e a ter compaixão pelas coisas que queremos mudar.
Ensina-nos que podemos ser tudo aquilo que quisermos, que está apenas ao alcance de um olhar para dentro. De nos reconhecermos, com verdade: nas mais astutas façanhas mas também nos nossos erros e fragilidades. Para depois, trabalharmos neles. Com paciência, disciplina, perseverança e intenção. Aceitarmo-nos sem falsas modéstias e sem orgulhos fraudulentos mas sim com verdade e amor próprio. Acredito que só se nos olharmos ao espelho da verdade podemos levantar-nos de cada vez que caímos, tropeçamos ou empurramos. Reconhecer que podemos ser melhores, para nós e para os outros. E trabalhar nesse sentido pode ser verdadeiramente inspirador, ao ajudar-nos a descobrir que somos muito mais fortes /flexíveis / criativos /aventureiros/ qualquer outra coisa/ do que pensávamos.

Being… to become. Aceitar é o início da transformação. E o dia aqui acabou, assim simplesmente, de o mostrar.

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