É verdade que o planeta geralmente associado à Mulher é Vénus. No entanto, não é por acaso que a Lua é o astro feminino, em contraposição ao Sol (que representa o masculino): existe uma ligação profunda e influência lunar nos ciclos da natureza e da mulher.

Já na antiguidade, a Lua era venerada como a personificação do divino feminino. Os estudos das antigas tradições e mitologias mostram que a interpretação da Grande Mãe como uma Deusa Tríplice – Donzela, Mãe e Anciã – foi baseada no ciclo das fases da Lua – crescente, cheia e minguante. Como símbolo do arquétipo feminino, a Lua representa os estados da alma, o inconsciente, as emoções e o psiquismo, a sensibilidade, fertilidade, maternidade, inspiração e intuição. As fases lunares caracterizam aspectos psicológicos e estágios de transformação que acompanham a trajetória mensal, anual – e num sentido mais amplo, da vida – da mulher.

Influência lunar nos ciclos da natureza e da mulher

A Lua influencia o desenvolvimento e o crescimento das plantas, os ciclos de plantações e das colheitas, o movimento das marés e as águas dos rios e oceanos. Não é difícil, por isso, perceber a relação e a influência directa deste astro no nosso corpo, que é maioritariamente constituído por água. A Lua e as marés interagem com os campos electromagnéticos dos nossos corpos, afectando os nossos processos fisiológicos internos. Assim, o movimento lunar influencia o nosso ciclo menstrual, bem como a concepção, geração e nascimento do todos os seres vivos.

Culturas e povos antigos, uma vez mais, já tinham este conhecimento e é por isso que muitos designaram as mulheres em período menstrual como estando “na sua lua” ou ciclo lunar (como chamamos no yoga). E este, tal como o ciclo lunar cósmico é constituído por quatro etapas: Lua Nova, Crescente, Cheia e Minguante (que explorarei em detalhe na segunda parte do artigo). Os ciclos macroscópicos da natureza, tais como as estações ou a mudança de marés são reflectidos, em escala micro, no ciclo menstrual de cada mulher. O amadurecimento de um óvulo, que ocorre mensalmente, espelha o processo de criação, tal como ocorre na natureza. E por isso, mesmo na sociedade moderna em que vivemos afastadas dos ritmos da natureza, o ciclo da ovulação é influenciado pela Lua: cada fase dura em média sete dias, como as fases lunares, somando 28 dias, tal como um ciclo lunar completo. Desta forma, alinhar o ciclo pessoal com o ciclo cósmico não deveria soar como algo místico e estranho à nossa realidade. No entanto, a verdade é que a grande maioria das mulheres vive toda uma vida alheia a estes factos e desconectada das ligações naturais e profundas do nosso ser à terra e à mãe natureza. Numa era que privilegia o pensamento racional sobre o intuitivo, somos cada vez mais afastadas dessa realidade sensível que faz parte de nós. Consequentemente, ignoramos também esta realidade hormonal.

O lado yoga da Lua: ganhando consciência…

Acredito que todos – homens e mulheres – sofreríamos menos angustias e ansiedades do foro emocional se crescêssemos com a ideia de que não somos portadores de uma personalidade única estática, mas sim que mudamos e evoluímos devido às experiências da nossa vida. E acredito que as mulheres sofreriam também muito menos ansiedade, em todos os níveis da sua existência, se crescessem em paz e aceitação de que são portadoras de diversas características que sofrem transformações constantes, assim como a lua, que muda de fases. Não raras vezes ouvimos homens (e também mulheres) dizerem que ficamos mal humoradas, “impossíveis” ou “chatas” durante ou antes do período menstrual. Aquilo a que vulgarmente chamamos de Tensão Pré Menstrual, não teria de se chamar tensão, nem possuir uma conotação negativa, se simplesmente aceitássemos que faz parte de quem somos. Tal como a fase nova da lua é de escuridão, também as mulheres atravessam essa fase mensalmente, durante a qual a força vital terá, momentaneamente, desaparecido, dando lugar a uma fase de maior introspecção, de olhar para o mundo interno. E é por isso que nos sentimos mais cansadas ou simplesmente com necessidade de maior quietude e com vontade de estar “no nosso canto” nesta fase: são as sombras que fazem naturalmente parte de nós e que, ao invés de expulsar ou querer camuflar, devemos aceitar e honrar.

Christiane Northrup, ginecologista-obstetra americana escreve, na sua obra “Corpo de Mulher, Sabedoria de Mulher, que “toda a variedade de doenças relacionadas com o stress, indo desde o síndrome pré-menstrual (SPM) à osteoporose, poderiam ser, em grande parte, atenuados se, para tanto, nos limitássemos a seguir, uma vez por mês, a sabedoria do nosso corpo”. Em diversas zonas da Índia, por exemplo, é perfeitamente aceitável que as mulheres diminuam um pouco as suas actividades nesta fase e descansem mais. Na prática de yoga, também este ciclo natural é tido em conta e honrado, e é por isso que durante o nosso período lunar não praticamos ou adaptamos a prática em diversas instâncias.

Poderá parecer estranho o facto de só me ter referido à prática de yoga já quase no final deste texto, mas o facto é que tudo o que foi abordado é yoga: a consciência do nosso corpo físico, bem como do mental, emocional e energético. E a consciência de que somos seres da natureza e do universo e que estamos intima e infinitamente conectados como os ritmos destes.

Calendário lunar