PACIÊNCIA, AMOR E YOGA

 In Yoga

Era terça-feira de manhã, e eu esperava na casa de banho a confirmação daquilo que já sabia, interiormente, há uns dias. Sem qualquer misticismo aqui associado, a prática de yoga proporciona-nos auto-conhecimento e consciência do nosso corpo. Durante esses dias e aqueles três minutos de espera, inúmeras coisas me passaram pela cabeça, especialmente porque algumas pessoas procuraram acalmar os meus instintos por, naturalmente, os confundirem com expectativa. A única pessoa que, tal como eu, o sentia, era a minha mãe. Nada mais a acrescentar, mãe é mãe. E naquele momento, na minha pequena casa de banho eu descobria isso mesmo: eu iria ser mãe.
E ele iria ser pai. E como quaisquer pais que têm o desejo de o ser e são bafejados pela sorte na primeira tentativa, nós irradiávamos felicidade e amor.

A pouco e pouco foram surgindo as questões naturais da primeira gravidez. Eu queria, basicamente, saber o que devia ou não comer e o que podia ou não fazer. Por ser também professora de yoga pré-natal, estava radiante por experimentar todas as adaptações na minha prática e pela possibilidade de viver uma gravidez que respira yoga, conectar o meu bebé com esta maravilhosa prática desde o início da sua existência; e por saber que, passando pelo processo de gravidez, iria estar muito mais apta para dar este tipo de aulas. Não tecnicamente, mas a um nível mais subtil, o da conexão com a mulher grávida. Por experimentar na minha pele e poder compreender todas as transformações por que a mulher passa neste ciclo.

No entanto, “contar ou não contar antes dos três meses”, eis a questão que a maioria das pessoas me fez, sendo que muitas vezes esta pergunta vinha associada ao conselho – não contes – num tom de algum secretismo e alarmismo.
É um facto: cerca de 25% das mulheres que engravidam sofre uma interrupção involuntária da gravidez ou, como é vulgarmente chamado, um aborto espontâneo. E a esmagadora maioria dos casos (cerca de 80%) ocorre nas primeiras 12 semanas, os tais três meses pelos quais grande parte das mulheres e dos casais espera até anunciar a sua gravidez.

Pensei bastante sobre este assunto e debati-o com algumas pessoas. Decidi contar aos mais íntimos, aqueles que se algo acontecer estarão lá para mim – os amigos e família – e a quem me fizesse sentido. Ou seja, não iria gritar aos sete ventos, porque não o faço seja qual for o assunto da minha vida pessoal, mas não iria esconder, como não o fiz numa ou noutra ocasião em que o tema surgiu naturalmente em conversa. Para mim, o
pano de fundo desta questão é entender porque é que as pessoas escondem: por mostrarem a sua vulnerabilidade se a gravidez não evoluir? Numa era e numa sociedade em que enchemos as redes sociais com provas de “sucesso”, assumir que algo não nos correu bem é expormos a nu os nossos “insucessos”? Somos melhores ou mais dignos se coisas que fogem totalmente ao nosso controlo correm bem?

Do meu ponto de vista, a perda de um bebé não é um insucesso. Como tudo na natureza, é um ciclo, simplesmente mais curto que outros. Na nossa sociedade é tabu falar da morte e é incomum expormo-nos como somos, de verdade. Seres que têm vulnerabilidades, todos diferentes, todos iguais. E escondemos os nossos medos e inseguranças. Curiosamente, estamos cada vez mais cheios deles.

Outros, sabendo da fragilidade desta fase, preferem não contar para, no caso de algo não correr como esperado, não terem que se confrontar com essa dor: dizer aos outros também implica que tenhamos que nos lembrar. E, não raras vezes, as pessoas preferem fugir e ignorar o que lhes causa sofrimento e tristeza, não se conectando com emoções que fazem parte da vida e de nós.

Optámos por não esperar três meses para saber se podíamos ou não festejar e vivemos em pleno aquela fase: eu falei com o ser que estava a gerar no meu dia-a-dia, fiz meditações lindas nas minhas práticas, escrevi um diário, fizemos planos, contámos a quem nos fez sentido e fomos felizes.

Perto das sete semanas, o meu corpo deu-me sinais e dois dias depois aconteceu, uma vez mais, aquilo que eu já pressentia: a minha gestação não evoluiu e entrei em aborto espontâneo.
Foi doloroso, física e emocionalmente. A experiência foi muito triste mas falar disso não me causa sofrimento: foi até reconfortante ter conhecimento do testemunho de várias mulheres que passaram pelo mesmo – e depois engravidaram sem quaisquer problemas – e partilhar os sentimentos que tomam conta de nós numa situação destas. Uma vez mais descobri que somos mais parecidos do que aquilo que julgamos e é comum as mulheres experimentarem várias emoções neste processo desde a tristeza, à raiva e à culpa. Na minha opinião a culpa deve ser a primeira emoção de que nos desprendemos, porque nos desequilibra física, energética e emocionalmente e porque não tem qualquer valor: este é um processo sobre o qual não temos controlo, logo, não pode haver culpa.

O resto veio com paciência, amor e yoga. Depois da turbulência dos primeiros dias e com o apoio incansável dele, comecei aos poucos a voltar à minha vida, aos nossos e aos meus projectos. Mas dei comigo, em certos momentos, a ser arrebatada por uma melancolia que não conseguia combater. Subitamente os olhos enchiam-se de água que

teimava em não secar. Com os dias, o meu corpo hormonal mudava novamente e eu precisava de espaço. De tempo. Para sentir tudo, deixar sair tudo, equilibrar tudo. Permitir-me chorar. Tudo. Enquanto praticava, ao som de Guns n’ Roses e em Paschimottanasana (anteflexão que, energeticamente, nos conecta com o nosso interior) abdiquei completamente de tentar ser forte e de me segurar. E senti-me forte, sim, ao deixar sair, e ir, todas as lágrimas e todas as dores decorrentes daquela perda. Aceitar: na aceitação reside, muitas vezes, o maior desafio das nossas vidas. Aceitar que este episódio triste aconteceu, que faz parte da minha vida e, como todos os desafios, veio ensinar-me. Transformar-me.

Por fim, praticar a gratidão. Porque conseguimos engravidar. Gratidão por tudo o que senti e experimentei naquele mês, pela mudança que se deu em mim. Gratidão pelo melhor companheiro que poderia desejar ao meu lado. Gratidão pelo meu corpo que se portou exemplarmente ao deixar ir o que não era para ficar.

Acredito em algo maior, num todo do qual faço parte. E acredito que a natureza é sábia. O nosso momento irá chegar. Até lá, vivemos plenamente, com consciência de tudo o que temos de bom, saúde, companheirismo, projectos, humor e amor; conscientes também das imperfeições da vida, que trazem sempre consigo mais uma aprendizagem e sem as quais não seríamos quem somos. E tudo isto é yoga.

Foi um mês muito feliz mas a conclusão mais profunda a que cheguei com esta experiência é, simplesmente, que eu sou feliz. E a vida, com todos os seus milagres e dificuldades é para ser agarrada e vivida. Agradeço, mais uma vez, a oportunidade de viver e sentir. Tudo.

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